Durante décadas, a imagem do juiz esteve ligada a um lugar: o fórum da comarca. A carreira do Doutor Valdemir Ferreira Santos, juiz de direito, desenvolve-se em um momento em que essa associação começa a ganhar novos contornos, com unidades judiciais que funcionam sem balcão físico e audiências realizadas por vídeo.
A mudança, porém, não é linear. Ao mesmo tempo em que o Judiciário amplia ferramentas digitais, o Conselho Nacional de Justiça reafirma a importância da presença do magistrado na comarca. Entender essa tensão ajuda a perceber para onde a magistratura caminha e o que isso significa para o cidadão.
A expansão das unidades digitais
Um dos movimentos mais visíveis foi a criação dos Núcleos de Justiça 4.0, regulamentados pelo CNJ. São unidades especializadas que funcionam de forma totalmente digital, com competência sobre determinadas matérias em uma região inteira, e não apenas em uma comarca.
Imagine um núcleo dedicado a causas previdenciárias ou a demandas de saúde em um estado. Em vez de cada comarca julgar esses processos separadamente, um grupo de juízes concentra o trabalho, ganha especialização e uniformiza critérios. As partes acompanham tudo pelo sistema eletrônico e participam das audiências por videoconferência.
Ao lado dos núcleos, o Juízo 100% Digital e o Balcão Virtual permitiram que advogados e cidadãos falem com servidores e acompanhem processos sem ir ao fórum. Para quem vive longe da sede da comarca, a economia de tempo e dinheiro é significativa. As ferramentas também mudaram a relação entre o juiz de direito e quem procura a unidade: na magistratura de primeiro grau, boa parte do atendimento a advogados e partes passou a poder ocorrer em ambiente virtual, com agendamento e registro.
O contrapeso: a exigência de presença
Ao mesmo tempo, a Constituição continua determinando que o juiz titular resida na respectiva comarca, salvo autorização do tribunal. Depois do período de pandemia, quando o trabalho remoto se generalizou, o CNJ editou normas para retomar e disciplinar a presença física dos magistrados nas unidades, estabelecendo limites ao teletrabalho.
A razão é prática. Há situações em que o contato direto faz diferença: uma audiência de custódia, a escuta de uma criança em processo de família, a inspeção de um estabelecimento prisional ou a simples possibilidade de o cidadão encontrar o juiz em seu local de trabalho. Valdemir Ferreira Santos salienta que essa proximidade é parte da identidade do primeiro grau.
O que muda na rotina do magistrado?
O resultado é um modelo híbrido. O juiz passa a conjugar audiências presenciais e virtuais, despachos eletrônicos e atendimento no fórum, sistemas digitais e atuação física na comarca.
Isso exige novas habilidades. Conduzir uma audiência por vídeo pede atenção à identificação das partes, à estabilidade da conexão e à incomunicabilidade das testemunhas. Já a atuação em núcleos regionais exige familiaridade com volumes elevados de processos semelhantes e com a necessidade de manter coerência entre as decisões.
Para a trajetória do Doutor Valdemir Ferreira Santos e de toda a geração atual de magistrados, essa combinação entre presença e tecnologia representa uma das transformações mais relevantes da carreira, porque altera a forma de organizar o trabalho sem mudar a essência da função de julgar.
Um equilíbrio ainda em construção
A tendência indica que o Judiciário não vai escolher entre o fórum físico e a vara digital. Na avaliação de Valdemir Ferreira Santos, os dois modelos tendem a coexistir, cada um aplicado às situações em que funciona melhor.
O desafio está em calibrar essa convivência. A tecnologia amplia o acesso e reduz custos, mas não pode afastar o juiz da realidade das pessoas que julga. Para o cidadão, o ideal é um Judiciário que responda com rapidez pelos meios digitais e que, quando necessário, ofereça a presença humana que certos conflitos exigem.
