Com queda de 75% nos casos em 2026 e o primeiro imunizante de dose única do planeta, o país avança em um dos maiores desafios de saúde pública das últimas décadas
Durante décadas, a dengue foi tratada como um problema inevitável no Brasil: algo que voltava a cada verão, sobrecarregava hospitais e tirava vidas. Mas o cenário que se desenha em 2026 é diferente, e os números do Ministério da Saúde ajudam a entender por quê. De janeiro a 11 de abril de 2026, foram notificados 227,5 mil casos prováveis da doença, contra 916,4 mil identificados no mesmo período do ano anterior, uma queda de 75%. Essa redução não aconteceu por acaso: ela é o resultado de uma combinação entre vigilância epidemiológica mais eficiente, controle vetorial ampliado e, sobretudo, uma vacina inédita no mundo, desenvolvida em solo brasileiro. Bvs
A partir de fevereiro de 2026, os profissionais de saúde da atenção primária que atuam no SUS começaram a receber a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. Aprovada pela Anvisa no início de dezembro de 2025, a Butantan-DV é o primeiro imunizante contra a dengue em dose única no mundo, indicada para pessoas entre 12 e 59 anos. Para um país que já chegou a registrar mais de 6,5 milhões de casos em um único ano, essa conquista tem um peso histórico inestimável. Agência Brasil
A vacina nacional que o mundo não tinha
Não é pouco coisa ser o primeiro. A Butantan-DV chega a um mercado em que os imunizantes disponíveis exigiam duas doses ou tinham aplicação restrita a pessoas já infectadas anteriormente, o que tornava as campanhas em larga escala praticamente inviáveis. O Ministério da Saúde investiu R$ 368 milhões para o fornecimento inicial de 3,9 milhões de doses do imunizante à rede pública, e o primeiro lote de 300 mil doses foi destinado prioritariamente aos profissionais da Atenção Primária à Saúde de todo o país. Ministério da Saúde
A estratégia de vacinação foi pensada em fases. A prefeitura de São Paulo iniciou em fevereiro de 2026 a vacinação para trabalhadores da Atenção Primária, expandindo depois para todos os profissionais de saúde com até 59 anos, incluindo técnicos de enfermagem, médicos e agentes comunitários. Com o avanço das fases, a tendência é que o acesso se amplie para grupos mais amplos da população, acompanhado de monitoramento rigoroso de eventuais eventos adversos. Prefeitura de São Paulo
O Instituto Butantan, que já foi responsável por imunizantes consagrados no país, apresenta com essa vacina um dos marcos mais relevantes da ciência brasileira nas últimas décadas. Diferente de parcerias dependentes de transferência tecnológica estrangeira, a Butantan-DV é um produto genuinamente nacional, da pesquisa à produção, o que fortalece a soberania sanitária do Brasil em cenários de crise global.
Queda sustentada e lição de saúde pública
O recuo dos casos em 2026 não é isolado. Em 2025, o Brasil registrou 1,7 milhão de casos prováveis de dengue, uma queda de 74% em relação a 2024, quando o país ultrapassou 6,5 milhões de registros. O número de óbitos também caiu 72%, passando de 6,3 mil para 1,7 mil mortes. Essa tendência de dois anos consecutivos de redução expressiva indica que as medidas adotadas têm funcionado. Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde atribui os resultados ao fortalecimento de ações coordenadas com estados e municípios, incluindo o uso de ovitrampas, armadilhas de monitoramento contra o Aedes aegypti, presentes em 1,6 mil municípios do país. O combate ao mosquito continua sendo parte central da estratégia, já que a vacina, por si só, não elimina a necessidade de controle ambiental. Bvs
Em 2025, a campanha de vacinação nas escolas permitiu a aplicação de mais de 1,6 milhão de doses em crianças e adolescentes, e para 2026, o governo destinou R$ 150 milhões para expandir a estratégia de imunização no ambiente escolar. A articulação entre educação e saúde tem se mostrado um caminho eficaz para atingir públicos que normalmente ficam fora das campanhas convencionais. Ministério da Saúde
O que ainda preocupa
Apesar dos avanços, a dengue ainda não é um problema resolvido. Pesquisadores do projeto InfoDengue-Mosqlimate Challenge estimam que o Brasil pode chegar a cerca de 1,8 milhão de casos no ano, número ainda expressivo, inferior apenas ao de 2024, quando o país ultrapassou 6,5 milhões de registros. A circulação simultânea dos quatro sorotipos do vírus, somada às mudanças climáticas que favorecem a proliferação do mosquito, mantém o alerta aceso entre epidemiologistas. Anahp
Há também a questão da cobertura vacinal. Com a Butantan-DV ainda em fase piloto e monitorada em municípios selecionados, a expansão da vacinação para a população geral depende de resultados que serão avaliados ao longo de 2026. A cautela é necessária, mas o horizonte é mais promissor do que nunca. O Brasil, que durante anos foi notícia pela epidemia de dengue, pode se tornar referência mundial no controle da doença, combinando tecnologia, ciência e política pública de forma integrada.
Fontes: Ministério da Saúde | Agência Brasil | BVS Saúde Pública
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
