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Por que três pedidos de transferência em um trimestre devem acender um sinal de alerta para a saúde dos colaboradores?  

Viktor Moraven
Por Viktor Moraven 29/07/2026
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8 Min de leitura
Éverton da Costa Sagiorato
Éverton da Costa Sagiorato
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O doutor Éverton da Costa Sagiorato pontua que um setor com rotatividade acima da média, hora extra virando rotina e três pedidos de transferência no mesmo trimestre já está dizendo o que vai aparecer depois em forma de atestado. A exposição existe antes do diagnóstico, e é nesse intervalo que a empresa consegue agir sem pagar a conta do afastamento. Riscos psicossociais raramente estouram sem aviso: eles acumulam sinais em relatórios onde ninguém pensa em procurar saúde.

Contents
Ler os indicadores que já apontam risco psicossocialPerguntar ao trabalhador o que o número não explicaSeparar sofrimento individual de risco do posto de trabalhoComo saber se o adoecimento tem relação com o trabalho? Escrever no PGR de um jeito que permita agirRevisar antes do calendário mandarO que a empresa descobre sobre si quando começa a medir isso?

O problema é que esses sinais estão espalhados por áreas diferentes, cada relatório lido por um gestor diferente, e nenhum deles tem a saúde como pergunta. O caminho a seguir obedece à lógica de qualquer gerenciamento de risco ocupacional: reconhecer a exposição, medir, registrar de modo que sirva para agir. A diferença é que a fonte não está numa máquina, está na forma de organizar o trabalho.

Ler os indicadores que já apontam risco psicossocial

Comece pelo que existe. Absenteísmo por setor e por dia da semana, atestados curtos e repetidos, rotatividade e tempo médio de permanência em cada função, volume de horas extras, banco de horas que nunca zera, alterações de escala em cima da hora, pedidos de transferência, ocorrências no canal de ética, acidentes concentrados em um turno específico. Éverton da Costa Sagiorato explica que nenhum desses números fala de saúde mental isoladamente. Juntos, por área, eles desenham onde o trabalho está pesando mais.

A leitura precisa ser comparativa, e essa é a parte que costuma faltar. Média da empresa esconde setor adoecido. O que interessa é comparar áreas parecidas entre si e cada área com o próprio passado. Anomalia local vale mais que indicador global. E atenção ao inverso: um setor com absenteísmo muito abaixo do vizinho pode ter medo de faltar, não saúde melhor. Área em que ninguém falta, ninguém reclama e ninguém pede transferência, às vezes indica silêncio, não equilíbrio.

Perguntar ao trabalhador o que o número não explica

Indicador mostra onde olhar, não o motivo. Para chegar ao motivo, o instrumento é a escuta organizada: questionário coletivo anônimo aplicado por setor, apoiado em modelos consolidados de demanda e controle ou de esforço e recompensa, e entrevistas em grupo com quem executa a tarefa. As perguntas tratam de carga, ritmo, autonomia, clareza do que se espera, apoio da liderança, previsibilidade de horário e tratamento recebido no dia a dia.

Três cuidados definem se o dado será confiável: anonimato de verdade, amostra suficiente por setor e devolutiva ao grupo depois da análise. Sem devolutiva, a aplicação seguinte volta com resposta protocolar, observa o doutor Éverton da Costa Sagiorato. Também não se pergunta diagnóstico, nem uso de medicação: isso pertence ao atendimento clínico, e misturar as duas coisas destrói a confiança do processo.

Separar sofrimento individual de risco do posto de trabalho

Duas pessoas na mesma escala podem reagir de formas opostas, e nenhuma das duas reações, sozinha, prova algo sobre o trabalho. Sofrimento tem várias origens possíveis, incluindo tudo o que acontece fora da empresa. Risco ocupacional é outra coisa: é o padrão que se repete em quem ocupa aquela posição, independentemente de quem seja a pessoa. Confundir os dois níveis leva a empresa a individualizar um problema de organização e a tratar como fragilidade pessoal o que é característica do posto.

Como saber se o adoecimento tem relação com o trabalho? 

O indício mais forte é a repetição: quando queixas semelhantes surgem entre várias pessoas que ocupam a mesma função, turno ou setor, o denominador comum está no desenho do trabalho, e não na história de vida de cada uma.

Éverton da Costa Sagiorato
Éverton da Costa Sagiorato

Essa repetição é o que autoriza uma medida coletiva. Se a queixa se concentra em uma função, a decisão recai sobre a função: dimensionamento, meta, escala, forma de cobrança, conduta da chefia. Casos individuais seguem para o cuidado clínico, com o sigilo que lhes cabe, enquanto o inventário registra o setor exposto. Éverton da Costa Sagiorato nota que esse duplo caminho é a condição para que a avaliação seja útil sem se tornar invasiva.

Escrever no PGR de um jeito que permita agir

Registro vago inutiliza todo o esforço anterior. Uma linha como “risco psicossocial: moderado” não permite nenhuma ação. O registro útil descreve a fonte em termos de organização do trabalho, algo próximo de “meta diária incompatível com o dimensionamento atual da equipe de expedição”, identifica o grupo exposto por função e turno, indica a medida escolhida, o prazo, o responsável e como a eficácia será verificada. Escrito assim, o inventário deixa de ser diagnóstico e passa a funcionar como instrução de trabalho para quem vai corrigir.

Verificação é justamente o item que costuma sumir. O mais simples é retomar o indicador que acendeu o alerta. O doutor Éverton da Costa Sagiorato aponta um teste direto: se as horas extras e o absenteísmo daquele setor não se moveram depois da medida, a medida não funcionou, ainda que esteja bem descrita no documento.

Revisar antes do calendário mandar

Revisão anual chega tarde quando o risco muda de tamanho em uma reunião de diretoria. Nova meta comercial, mudança de escala, reestruturação com corte de vagas, troca de liderança em uma área sensível, denúncia de assédio, afastamento por transtorno mental: cada um desses eventos altera a exposição e pede reavaliação daquele setor, não da empresa inteira.

O que sustenta essa rotina é modesto. Um painel mensal com quatro ou cinco indicadores por área, olhado por alguém que saiba o que aquilo significa em termos de saúde, antecipa boa parte dos problemas antes que eles cheguem ao consultório. É o tipo de vigilância contínua que Éverton da Costa Sagiorato considera mais eficaz do que qualquer campanha pontual, porque acompanha a operação no ritmo em que ela muda. Identificação precoce é rotina de gestão, não projeto com data de encerramento.

O que a empresa descobre sobre si quando começa a medir isso?

Quem faz esse percurso até o fim encontra uma conclusão desconfortável. As fontes de exposição quase nunca estão no piso da operação: estão em uma meta definida longe dela, em uma escala desenhada em planilha, em uma vaga não reposta, em um estilo de cobrança que ninguém nunca discutiu. O risco foi criado por decisão de gestão, tomada em geral por quem nunca precisou executar aquela tarefa no ritmo que estabeleceu.

Isso muda o significado do exercício. Identificar risco psicossocial cedo não é generosidade com o trabalhador, é reconhecer autoria sobre as próprias decisões e assumir que elas têm efeito sobre corpo e mente de quem executa. A planilha avisa antes do atestado. Depende de alguém querer ler.

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