Segundo o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, a inteligência artificial começa a ampliar as possibilidades de acompanhamento da saúde na terceira idade ao permitir que mudanças discretas na rotina sejam identificadas ao longo do tempo. Alterações no sono, na mobilidade, nos períodos de inatividade ou na realização de atividades cotidianas podem surgir gradualmente e passar despercebidas até mesmo por pessoas próximas.
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Como a IA poderia perceber que algo mudou?
Uma das possibilidades está na criação de um padrão individual de comportamento. Em vez de comparar exclusivamente uma pessoa de 80 anos com milhares de outros idosos, determinados sistemas podem aprender como aquela pessoa costuma se movimentar, dormir e realizar atividades dentro de casa. Alterações persistentes nesse padrão podem, então, gerar sinais para uma avaliação mais cuidadosa, especialmente quando representam uma mudança significativa em relação aos hábitos mantidos anteriormente.
Essa capacidade ganha importância quando familiares não acompanham presencialmente toda a rotina. Uma filha que visita os pais aos finais de semana, por exemplo, talvez não perceba que um deles passou a caminhar menos durante os outros dias. A mudança pode ocorrer gradualmente, tornando-se parte da nova rotina antes de chamar atenção de quem convive com o idoso apenas em determinados momentos, o que pode dificultar a percepção precoce de alterações funcionais.
Ainda assim, reconhecer uma alteração não significa compreender automaticamente sua causa. Na perspectiva do Doutor Yuri Silva Portela, a informação tecnológica precisa ser interpretada dentro do contexto da pessoa. Caminhar menos pode estar relacionado a dor, indisposição, medo de cair, mudança na rotina ou diversos outros fatores. O algoritmo pode levantar a pergunta, mas a resposta exige uma avaliação mais ampla, capaz de relacionar os dados observados às condições e aos acontecimentos recentes na vida daquele idoso.
Pequenas mudanças podem ganhar maior visibilidade? Veja com o Doutor Yuri Silva Portela
De acordo com o Doutor Yuri Silva Portela, o potencial dessas tecnologias está justamente na capacidade de acompanhar comportamentos repetidos ao longo do tempo. Horários de sono, frequência de deslocamentos pela residência, velocidade da caminhada e períodos de inatividade são exemplos de informações que podem formar um histórico. Uma mudança isolada provavelmente teria pouco significado, enquanto uma tendência persistente pode justificar atenção.

Imagine um idoso que normalmente circula várias vezes entre quarto, cozinha e sala, mas começa progressivamente a permanecer quase todo o dia em um único ambiente. Para alguém que o visita ocasionalmente, essa transformação pode passar despercebida. Um sistema de monitoramento poderia reconhecer que o padrão atual está diferente daquele observado anteriormente.
A tecnologia conseguiria observar melhor que a família?
Tecnologia e convivência familiar observam aspectos diferentes da vida do idoso. Sistemas computacionais podem analisar continuamente grandes quantidades de informações, enquanto familiares conhecem preferências, acontecimentos recentes, emoções e particularidades que dificilmente são traduzidas integralmente em dados. Por isso, uma fonte não precisa substituir a outra, já que ambas podem contribuir de maneiras distintas para compreender mudanças que aparecem no cotidiano.
Um sensor pode perceber, por exemplo, que determinada pessoa deixou de sair de casa com a frequência habitual. Entretanto, essa informação isolada não explica o motivo. Talvez exista uma limitação física recente, mas também pode ter ocorrido uma mudança temporária de rotina ou alguma circunstância externa. É justamente nessa etapa que o contexto humano permanece indispensável, pois permite relacionar aquilo que foi registrado pela tecnologia ao que está acontecendo concretamente na vida do idoso.
Para o Doutor Yuri Silva Portela, essa complementaridade ajuda a posicionar a inteligência artificial como ferramenta de apoio. A tecnologia pode ampliar a capacidade de perceber alterações, enquanto familiares e profissionais ajudam a compreender seu significado. Dessa forma, o dado deixa de funcionar como conclusão e passa a servir como ponto de partida para uma observação mais qualificada, capaz de direcionar a atenção para mudanças que realmente merecem ser investigadas.
